Sexta-feira, Dezembro 31, 2010
loucura não faz sentido...
Último dia do ano.
Momento de confraternização para nós, os filhos de Adão, senhores dessa Terra, portadores do conhecimento, servos do destino, testemunhas oculares da história ou, como eu prefiro, homens. Mais uma volta em torno do Astro-rei, trezentos e sessenta e cinco dias que se somam aos incontáveis que esse planeta já viu, outro início de ciclo ou, como eu prefiro, mais um ano que nasce.
Sem muita enrolação, estamos aqui reunidos justamente para a novidade. Vivenciarmos o novo! Meus queridos irmãos e irmãs aqui reunidos comigo seguirão os mesmos passos que eu e, exatamente quando soarem as doze badaladas indicativas da passagem, embarcaremos literalmente dessa para a melhor. Sim, senhores, senhoras e senhoritas! Somos um daqueles grupos que vocês consideram radicais e deixaremos esse pobre plano existencial em busca de uma nova e brilhante jornada rumo à salvação, redenção, perpetuação ou, como eu prefiro, evolução das nossas almas.
O motivo é aquele mesmo de sempre: acreditamos que Jesus, Buda, Jeová, Alá, elfos, hobbits, anjos, extraterrestres, Gandhi, Maradona, Michel Jackson, Michael Jordan, Michel Moore, Michael Schumacher, Michelangelo ou, como eu prefiro, as forças Universais estejam pré-dispostos a encaminhar nossa compreensão existencial a novos patamares onde os regentes sejam a paz e o amor.
Enquanto vocês apostam em números da mega sena da virada, estamos nos desfazendo de todas as nossas posses materiais. Vamos queimar nosso dinheiro junto, pois dessa vida nada se leva. Estaremos lindos, leves, soltos ou, como eu prefiro, purificados de todas as experiências materialistas das quais achamos que nos acrescentam algo.
Dessa vida nada se leva. Dessa vida nada se leva! Nem a lembrança do cair de tarde na minha cidade natal, pequeno vilarejo onde o crepúsculo proporcionava tons alaranjados que nunca consegui reproduzir em nenhum dos quadros que pintei nos anos que seguiram. Dessa vida nada se leva! Nem a sensação de ter roubado a bola que iniciou, no antepenúltimo minuto, o contra-ataque da virada e a comemoração solitária com o goleiro e o massagista enlouquecido que invadiu o gramado reconhecendo o mérito da antecipação defensiva. Dessa vida nada se leva! Nem o olhar orgulhoso e abraço dos meus pais que, divorciados, não se falavam há alguns anos, no dia da minha formatura. Dessa vida nada se leva! Nem a lembrança de qualquer minuto do infinito orgasmo com Rosinha...
Rosinha...
Rosinha...
Dessa vida nad... Ai, Rosinha...
Será que ainda tem alguma lotérica aberta?
DISCO NA AGULHA: “AROUND THE SUN” – R.E.M.
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